quarta-feira, 27 de julho de 2016

NEUROMATRIX e SISTEMAS DINÂMICOS




Olá a todos,

Hoje iremos comentar um tema que considero muito relevante para programas de treinamento e reabilitação- a dor e sua influência na performance, para comentarmos sobre isso usaremos novamente a análise que venho fazendo no blog, usaremos os sistemas dinâmicos para a análise da dor, pois assim como o controle motor e a fadiga, entendemos a dor como um fenômeno natural regido pelo princípio da necessidade e sua ocorrência tem como requisito básico sua necessidade.

Sendo um fenômeno complexo, dissipativo e não linear (característicaS de um sistema dinâmico), a dor não pode ser explicado pela análise de somente um dos fatores que geram influência no seu aparecimento mas sim através da análise da interação de todos os fatores que influenciam em sua gênese, sendo assim definimos a dor como uma saída ativada pela ativação de várias outras saídas vindas de múltiplos sistemas ativados por uma "neurosignature" individual e específica.

Então vamos por partes, o primeiro ponto e o entendimento da dor como uma saída, isto nos leva a entender a dor como algo experimentado conscientemente, isto é a dor vem de um "entendimento" do cérebro sobre o estado do corpo. Sendo assim a dor ocorre quando o cérebro "entende" que o corpo está em situação de perigo, isto é, a dor é uma experiência que gera uma mudança de comportamento frente a uma ameaça, sendo assim a dor é um elemento protetor, que provoca uma mudança comportamental em resposta a uma ampla variedade de entradas e que tem como função básica proteger o corpo contra danos maiores.

Este entendimento da dor nos leva a algumas perspectivas práticas sobre como lidar com a dor, este "entendimento" do cérebro sobre o perigo. Em de uma interação entre diversos tipos de entradas e estas entradas podem ser de origem cognitiva, emocional e sensorial,isto nos leva a alguns outros conceitos, o primeiro que iremos discutir e o conceito de "valor da da dor". O que a dor representa para o indivíduo, alguém pode sentir uma dor no tornozelo e isso representar alguns dias de molho durante as férias, com isso está dor não representa uma perspectiva de prejuízo financeiro por faltar o emprego, nem o dano de perder um evento importante, isto é, esta dor tem um valor menor do que a dor que te faz ter um prejuízo financeiro por falta no emprego, que faz você perder um evento importante, como por exemplo a dor de uma lesão que representa um corte próximo a uma copa do mundo, pois bem, alguns estudos vem mostrando que dores que possuem uma representação sócio- cultural ou econômica maior são mais sentidas ou percebidas e isto ocorre porque a dor é um fenômeno do corpo e da mente.

Outro ponto importante a se entender é a relação entre o dano tecidual e a magnitude da dor, nem sempre o dano tecidual representa a magnitude da dor, por exemplo, algumas vezes você já deve ter visto uma mancha roxa, uma pancada que gerou um dano tecidual mas que vc não lembra e não sabe como ocorreu, isto é explicado porque o cérebro não "entendeu" que aquela pancada representava um grande perigo a ponto de "sugerir" uma mudança de comportamento através do aparecimento da dor, como isso podemos entender que a dor nem sempre representa o dano tecidual, algumas vezes um pequeno dano tecidual gera uma grande dor e vice versa, concluímos com isso que a dor pode ser um pobre indicador da realidade.

Mas o que determina esse valor da dor?o que determina a magnitude da dor? Os trabalhos de Ronald Melzack nos ajudam a iniciar um raciocínio sobre isso. Melzack estudou o fenômeno dos membros fantasmas e através disso verificou que mesmo na ausência de tecido (no caso a perna amputada) a sensação de dor ainda acontecia (dor fantasma), com isso podemos entender a dor como algo que pode ocorrer mesmo sem nenhuma entrada, isto é a dor ocorre no cérebro e está fortemente relacionada aos estados mentais, podendo ocorrer com nocicepção ou sem nocicepção como no caso da dor fantasma onde ocorre mesmo na ausência do membro (isto é, não há nervo e nem nocicepção consequentemente). Para explicar essa relação com os circuitos cerebrais, Melzack utiliza o conceito de NEUROMATRIX, que representa a junção de todas as redes neurais envolvidas na dor,uma parte dessas redes formadas por neurônios e outras formadas por neuróglias e astrócitos que compõem o sistema de alerta imunológico do sistema nervoso.

Agora sabemos que a NEUROMATRIX representa a rede neural que identifica que uma área está em perigo porém a NEUROMATRIX faz isso através de informações provenientes do que Bartra chama de EXOBRAIN, que consiste em uma rede externa que através de substituição simbólica promovem a interação de elementos sócio culturais(processos externos) com os circuitos cerebrais(processos internos). A magnitude da dor é determinada pela interação desses dois elementos, através disso determinamos o valor da dor fortemente influenciado pelas redes externas sócio culturais.

A magnitude da dor e determinada pela interação do indivíduo (NEUROMATRIX ) com o ambiente (exobrain) e isto nos leva a uma relação entre o processo de dor e o sofrimento causado, a magnitude da dor gera um sofrimento e o sofrimento,gera um estado mental que funciona como uma entrada modulando o estado mental que causa a dor, está relação entre o ambiente(exobrain) e o indivíduo (NEUROMATRIX) tem como link as estruturas do sistema límbico e resultam em um estado consciente da dor que leva o conceito de dor a um status de experiência.

A dor existe como uma experiência,existe e é real sempre que experimentada e isto é um ponto importante pois a experiência de dor vem de uma interação entre o indivíduo e o ambiente é sempre que a dor ocorre ela forma uma assinatura neural que representa um estado de alerta e este estado de alerta é permanente enquanto o cérebro "entender" que há risco. Enquanto houver risco,o padrão representativo da dor no sistema nervoso permanece, isto é perceptivo em atletas que mesmo após cessar a dor e o dano tecidual relatam que sentem algo diferente, uma insegurança no local afetado.

Esta manutenção da assinatura de dor leva a algumas repercussões no modo como se lida com a dor. Em um processo de reabilitação muitas vezes conseguimos reestabelecer o tecido, cessar a dor, e até recuperar padrões de movimento aceitáveis, mas isso não encerra o processo, pois enquanto a neuro assinatura for mantida(ativação da rede neuronal e do sistema imunológico neural (microglia e astrócitos)representativos da dor) o sistema nervoso central desloca "atenção especial" a área afetada ou que representa perigo de dano. É como se mais câmaras de segurança fossem instaladas em locais como mais risco de assalto, usando a analogia do David Joyce, então esse deslocamento de "atenção" do sistema nervoso leva a uma redução da demanda do sistema nervoso a redes neurais representativas dos padrões de movimento, isto representa uma redução de performance que tem como causa a manutenção da neuro assinatura, isto é, a manutenção de um padrão neural indicativo de perigo que pode levar a recidiva e baixa performance e enquanto não for modificada essa neuro assinatura não completaremos a reabilitação de forma segura e eficiente.

Esse raciocínio nos leva a algumas hipóteses:

1. Entendendo a influência do exobrain, isto é, de fatores sócio culturais, afetivos e cognitivos como nós profissionais de treinamento e reabilitação podemos lidar com esta dimensão da dor? Que estratégias podemos usar para lidar com esta dimensão em ambiente de treino e reabilitação?

Como modular a relação sofrimento- dor crônica onde o sofrimento repercute diretamente em menos possibilidades futuras, ansiedade aumentada e percepção alterada sobre o corpo e isso pode levar a mais dor porque aumenta o "valor da dor", então a quebra da relação sofrimento-dor pode ser uma estratégia interessante mas isso exige uma mudança de conduta por conta do profissional.

2. Técnicas que prometem lidar com questões sensoriais como a aplicação de taping podem modular a NEUROMATRIX? Será que o que alguns chamam de placebo não poderia ser uma forte modulação desta rede neural e daí os resultados clínicos interessantes desta técnica? obviamente que no momento isto é a apenas uma hipótese.


Estas são apenas uma das várias perguntas que podem ser levantadas sobre este tema, porém estes são assuntos para postagens futuras, por hora o entendimento da dor sob o olhar dos sistemas dinâmicos podem nortear uma reabilitação através de um raciocinio bem mais amplo, onde a dor e a lesão formam diversas relações de causa e efeito que devem ser consideradas de forma complexa em um programa de reabilitação


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Olá pessoal,



Esta é a nossa certificação nível 1 que acontece em Fortaleza, Teresina e São Luis. Estamos com inscrições abertas para a turma de Fortaleza. Não percam!!

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A Teoria do Governador Central









Hoje iremos falar sobre a aplicação da ideia multifatorial, dinamica, complexa e não linear ao modelo de fadiga e como isto interfere nos limites da performance humana.

Que fatores influenciam decisivamente no esforço máximo? Como estes fatores modulam o ritmo do esforço em provas de longa duração? perguntas como estas nos colocam uma necessidade de entender algo além do tradicional modelo fisiológico pelo qual temos explicado tudo que ocorre no exercício e no esforço por décadas. Obviamente que o conhecimento sobre como o esforço em diversos níveis influencia no metabolismo continua sendo essencial, porém talvez o processo seja mais complexo que isso.

Em uma visão mais tradicional temos a visão da chamada "teoria da catástrofe multifatorial" (GIBSON e EDWARDS,1985), onde variáveis fisiológicas como os níveis de lactato, amônia, potássio, epinefrina e noraepinefrina ganham status de causa da fadiga e com isso estes fatores indicariam a necessidade de parar o exercício após um esforço máximo. Além disso aqui dividimos a fadiga em dois tipos: central e periférica, onde a central seria a falha nas condições do neurônio motor trabalhar plenamente e a fadiga periférica envolveria os níveis de metabólitos envolvidos com o esforço a nível metabólico que limitariam o esforço apesar da chegada de estímulo neural permanecer apropriada.

Em contrapartida a esta visão e partindo do princípio de que fenômenos naturais são essencialmente não lineares, a fadiga como tal, não poderia ser explicada pela limitada ideia de que o fator organismo fosse o único responsável por tal situação. Sendo assim pesquisadores como o sul africano Timothy Noakes,Lambert e St. Clair Gibson propuseram uma teoria multifatorial de sistemas complexos chamada de Teoria do Governador Central.

O modelo prevê um "articulador central"que integra as informações centrais e periféricas envolvidas com o esforço em termos de sensações de esforço envolvendo fortemente fatores emocionais. Aqui Noakes, Lambert e St. Clair Gibson são categóricos em dizer que o exercício começa e termina no cérebro.

O tal "articulador central"anatomicamente se mostra como uma vasta área que envolve o córtex central (motor, pré motor e pré central) e o córtex superior (somatosensorial e posterior), além do hipotálamo e sua função é integrar informações vindas da periferia que chegam ao subconsciente ( sentido de self) e torna-las consciente (proto self) e é justamente esta informação consciente que conhecemos como percepção de esforço.

A partir da percepção (consciência)do esforço cria-se a chave para o entendimento da teoria do governador central - O ambiente psicológico. Mecanismos conhecidos como Teleoantecipação e retroalimentação explicam como é possível gerenciar e criar estratégias táticas para o esforço que na prática modulam o ritmo de corrida por exemplo.

A teleoantecipação é responsável por selecionar o ritmo a ser empregado e para isso é usado informações de experiências anteriores no mesmo ambiente em que esta inserido o esforço, com isso as estratégias táticas de planejamento para o ponto final do exercício são moduladas através de sentimentos em que o atleta foi anteriormente exposto e com isso por um processo dedutivo o chamado "marcador somático"(falaremos posteriormente sobre ele) cria opções em que o esforço pode ser bem sucedido,porém este processo ainda é a nível subconsciente (aqui há uma modulação dos padrões de recrutamento muscular e do perfil metabólico para que o atleta possa lidar bem com o esforço) e a tomada de decisão consciente virá em estágios posteriores e neste ponto estão inseridos os insucessos por erro no cálculo tático do esforço. Já o conceito de retroalimentação é o responsável por integrar as informações reflexas vindas de mecanoreceptores e quimioreceptores que emitem aferencias ao SNC e a partir do processamento destas informações há um ajuste do ritmo como resposta eferente.

A HIPÓTESE DO MARCADOR SOMÁTICO:

Como vimos, por Teleoantecipação e Retroalimentação, o "articulador central"ajusta o recrutamento motor e o perfil metabólico ao ambiente onde o exercício esta inserido e este ambiente representa a demanda energética imposta pelo esforço. Esta integração cria o chamado ambiente psicológico e a partir desta integração entre as condições motoras e metabólicas com as condições emocionais é que explicamos a ideia do marcador somático.

Os estados emocionais são coletâneas distintas de respostas químicas e neurais de estímulos emocionais particulares, relatados de sintomas físicos quantificáveis, com isso podemos relacionar a fadiga a um estado emocional vinda de uma integração de aspectos fisiológicos e cognitivos.

Os aspectos cognitivos se originam obviamente de experiências prévias, a partir destas experiências surgem "cenas"na consciência que retratam uma lembrança negativa (ou positiva) da experiência e isso se manifesta como uma sensação visceral desagradável (o popular frio na barriga ou a taquicardia) e quando uma sensação se manifesta corporalmente chamamos de somática.

O chamado "marcador somático" consiste em um "protetor"contra danos causados por uma ação, baseado em experiências anteriores e atua reduzindo opções de ritmo e esforço para que o atleta não volte a sentir aquela sensação desagradável. No entanto, o marcador somático não é responsável pela tomada de decisão do atleta e pela indissociável relação entre os processos cognitivos e emocionais a decisão é tomada baseada na seleção entre opções favoráveis e desfavoráveis selecionadas pelo marcador somático para o ambiente do esforço em questão.

O modelo de Damasio,2000 explica o marcador somático a partir de dois outros conceitos. O primeiro é o sentido de self, que consiste em todo o conjunto neural que determina ao cérebro todo o conhecimento do sujeito tanto consciente como inconscientemente e o segundo é o proto self que é uma rede de padrões neurais que representam e mapeiam o estado do organismo a cada momento e em vários níveis do cérebro e nós somos conscientes do proto self, então ele é o componente chave para a função do marcador somático e para a modulação do ritmo de esforço.

O proto self, mapeia as mudanças fisiológicas ocorridas com o esforço e as associa a emoções(subconsciente) e estas emoções passam a ser sentimentos(consciente) e para que isso ocorra o proto self trabalha em duas frentes: O mapa de primeira ordem e o mapa de segunda ordem.

No inicio do exercício os mapas de primeira ordem do proto self, partido da informação da homeostase de repouso cria uma margem de segurança para o esforço, porém com a evolução do exercício os mapas de segunda ordem mapeiam informações metabólicas que estão em constante mudança durante o exercício (debito cardíaco, ventilação, temperatura, marcadores metabólicos e etc.) e com isso o mapa de primeira ordem já estabelece uma condição consciente de fadiga, que crescerá a medida que a margem de segurança estabelecida com a homeostase de repouso vai se distanciando e a medida que os mapas de segunda ordem continuam mapeando as variáveis e comparando com as margens previstas pelos mapas de primeira, o esforço irá durar até sua interrupção dentro de níveis táticos previstos pela integração de fatores fisiológicos e emocionais contidos no ambiente do esforço.



Alguns devem se perguntar o porque do destaque a palavra ambiente durante todo o texto, pois bem, para quem já leu o outro texto entendeu que a relação organismo, ambiente e tarefa rege o controle motor e isto se dá pela característica não linear vinda do fato do controle motor, assim como a fadiga ser um fenômeno natural inserido em um sistema dinâmico dissipativo. No caso do modelo do governador central mais uma vez o ambiente é peça chave.

A pesquisadora Priscila Garcia em sua tese de mestrado, analisou o efeito da mudança ambiental na qual o esforço esta inserido nos componentes fisiológicos e emocionais e para isso ela usou 4 grupos: um grupo que foi instruído a correr 20 min na esteira, um segundo grupo que foi instruído a correr 10 min e ao final destes 10 foi instruído a correr mais 10, o terceiro que foi instruído a correr 10 minutos e ao final destes 10 foi instruído a correr mais 20 e um quarto grupo que foi instruído a correr indefinidamente. Nestes quatro grupos o ambiente onde o exercício estava inserido foi manipulado e isto repercutiu em marcadores fisiológicos e emocionais e esta relação da previsibilidade do contexto ambiental ou não modulou a tática de ritmo e a percepção subjetiva do esforço para cada uma das situações mostrando uma influencia importante do ambiente e de suas constantes variações no contexto estratégico de corredores.

Mais uma vez a analise no contexto multifatorial, dinâmico, complexo e não linear que se insere estes conceitos não é algo muito simples, porém mais uma vez conto com o brio do leitor do blog para estudar. A ideia do professor Noakes, assim como todas as teorias que envolvem a inserção do contexto psicológico para explicar coisas que até então apenas a fisiologia clássica explicava é de uma coerência incrível e me parece representar o presente e o futuro das pesquisas e das aplicações práticas em performance humana.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Bases teóricas do controle motor.








Hoje o tema é controle motor e nossa ideia é realizar uma série de artigos que mostram a influencia da teoria dos sistemas dinâmicos desde sua importância no treinamento das habilidades motoras até sua influencia no treinamento de força e na endurance.

Até o inicio dos anos 80, o conhecimento do controle motor foi dominado pelo modelo hierárquico, onde a cérebro tido como o centro de comando do controle motor e a sua condição de disponibilizar impulsos nervosos para os músculos se mostravam como a ideia central do entendimento do movimento. Nesta visão reducionista do processo, se o sistema nervoso disponibiliza impulsos para os músculos o movimento ocorre de maneira plena, deixando a motricidade a cargo apenas de uma boa condição de disponibilidade neurológica do impulso neural. Neste contexto, a avaliação da gradação de força ou disponibilidade neural para os músculos realizadas por testes manuais de função muscular servia a este propósito.

Porém logo esta visão reducionista do processo foi contestada pela chamada "teoria do esquema" (Schema Theory), onde tivemos a inserção do conceito de especificidade do movimento, neste contexto o movimento era aprendido e controlado com base em similaridades sensoriais que criavam uma matriz de especificidade para o controle do movimento, aqui os músculos estariam disponíveis em atividades específicas, de modo que os músculos estariam disponíveis em uma situação e poderia não esta em outra e a otimização da aprendizagem e consequentemente do controle motor viria do fato de uma matriz de convergência motora. Neste contexto, um modelo que tratamos anteriormente aqui no blog serve como modelo de aplicabilidade, falo da ideia do fisioterapeuta Luigi Stecco sobre centros de coordenação e centros de fusão onde as zonas de convergências vetoriais serviriam a matriz de especificidade mostrada pela "teoria do esquema", onde no momento que mudamos o padrão mudamos o centro de fusão então mudamos a disponibilidade neurológica e mudamos o grau de ativação e recrutamento de unidades motoras, identificando zonas de função e disfunção dentro da mesma matriz de especificidade.

Sem dúvidas a teoria do esquema se mostrou como um enorme avanço no estudo do controle motor, a matriz de especificidade cria a ideia de integração das propriedades da tarefa motora ao contexto do entendimento do movimento e inicia um entendimento sobre similaridades sensoriais que nos fornecem a base para o entendimento das transferências de adaptações fisiológicas no contexto do treinamento desportivo.

Porém a teoria do esquema, apesar de ter significado um grande avanço ainda não conseguiu expor o controle motor em toda a sua complexidade, falta o entendimento de que por toda sua complexidade fenômenos naturais como o controle motor e a fadiga (como veremos em posts posteriores) não emergem de uma estrutura linear e é justamente para abranger a não linearidade do fenômeno controle motor que surge a chamada teoria dos sistemas dinâmicos (TSD).

Um sistema não linear não pode ser explicado pelo entendimento de suas partes isoladas, mas somente pela interação entre essas partes e sendo assim a TSD vê o sistema motor humano como um sistema complexo não linear (característica essencial de sistemas em desenvolvimento), dinâmico e dissipativo, isto é, a energia necessária para manter o organismo funcionando varia de situação para situação.

Enfim, isto pode parecer um tanto complexo demais, mas basicamente a teoria dos sistemas dinâmicos se estabelece em dois princípios básicos. O primeiro é a segunda lei da termodinâmica que versa sobre o fato de que ordem e complexidade em um sistema dinâmico surge em oposição a desordem, pois bem, considerando que o sistema motor é um sistema não linear, dinâmico e dissipativo, mudanças no comportamento motor só existem vindas das perturbações de velhas formas que trazem consigo novas emergências motoras (instabilidades transitórias) que são o ponto de partida para a reorganização do sistema em busca de um novo patamar de estabilidade e a isto nós damos o nome de auto organização, que consiste no primeiro conceito básico da teoria dos sistemas dinâmicos.

O segundo principio básico para a TSD são os trabalhos do fisiologista russo Nicholas Barnstein que basicamente descrevem duas situações. A primeira vem do fato de que quando nascemos nosso movimento é essencialmente reflexo e involuntário e com isso temos 100% de graus de liberdade e 0% de controle sobre esses graus de liberdade para um dado movimento, porém a medida que desenvolvemos o controle sobre estes graus de liberdade nosso movimento passa a ser voluntário e com isso resolvemos o primeiro problema de Barnstein: o problema dos graus de liberdade. No esporte o treinamento técnico, os exercícios educativos e etc. visam o desenvolvimento pleno do controle sobre um movimento específico, isto é, quando alcançamos a excelência no esporte, restringimos todos os nossos graus de liberdade para uma unidade funcional única que consiste no movimento plenamente controlado e preciso e ao conjunto de músculos que realizam esta tarefa damos o nome de estrutura coordenativa. Como já tratado aqui no blog anteriormente, a resolução do problema de graus de liberdade é resolvido pela estrutura estável do movimento que citamos como atrator em um outro post.

Resolvido o problema dos graus de liberdade temos a certeza de que lidamos bem com a situação de controle do movimento em um ambiente relativamente estável, mas aqui encontramos um outro problema: Como lidar com um ambiente que varia constantemente? Como lidar com as habilidades abertas (Open Skills) onde o componente perceptivo cognitivo é preponderante, onde temos que tomar decisões rápidas para resolver tarefas motoras complexas, pois bem, aqui chegamos ao segundo problema de Barnstein: O problema da variabilidade condicionada ao contexto. Aqui sempre que o ambiente onde o movimento estiver acontecendo variar teremos uma nova emergência motora, com isso é necessário um novo comportamento motor e as possibilidades de variações ambientais são inúmeras, com isso há uma necessidade de controlar os vários movimentos possíveis de ser realizados nas mais variadas condições ambientais e a imprevisibilidade deste contexto é o que torna difícil a resolução deste problema. Este problema é resolvido pelo que chamamos no outro post de Flutuações, a parte instável que varia com o ambiente do movimento e como falamos lá, a solução para este problema é enraizar o atrator, quanto melhor for o atrator mais fácil ficará lidar com as mudanças emergenciais vindas do contexto ambiental.

Aprender e controlar movimento consiste em proporcionar condições para o desenvolvimento a partir de demandas aqui a aprendizagem motora não é mais hierárquica mas dependente de influencias bi direcionais contidas em um espaço temporal que chamamos de timing, onde os fatores de restrição (organismo, ambiente e tarefa) se inter relacionam criando condições para o aprendizado e a mudança do comportamento motor, mas é essencialmente a quebra na condição estável do sistema motor que proporciona esta mudança. Na prática esta quebra de estabilidade pode vim na forma de mudança de terreno em uma corrida, de mais anilhas em uma barra no treino de força, de uma plataforma instável, de um palmar na piscina e etc., dos três grandes fatores de restrição o ambiente é o mais fácil de manipularmos.

Pela descrição da evolução das teorias do sistema motor podemos ver que se você quer avaliar controle motor o modo mais fácil é olhando para o output de informações como disse o grande Gray Cook, isto é o que faz o FMS e é o que faz alguns testes clínicos usados no contexto de reabilitação por exemplo, olhando para o movimento de MMSS no plano escapular o chamado Scaption podemos descrever uma boa relação deste movimento (output) com as situações funcionais e com isso podemos corrigir a discinese escapular a partir da manipulação ambiental onde se insere este movimento. Para quem conhece o trabalho corretivo proposto pelo Gray Cook fica claro a utilização da TSD na técnica chamada RNT (reactive neuromuscular training), onde a liga é o promotor da mudança ambiental que chamamos Affordance e esta liga muda o ambiente fornecendo feedback proprioceptivo para uma mudança no comportamento motor, ela proporciona condições ambientais para um novo comportamento na direção planejada pelo treinador ou fisioterapeuta. A manipulação da interação ambiente - organismo - tarefa motora é a chave para o entendimento e o desenvolvimento da motricidade na atualidade com isso fica minha contribuição e em um próximo post falaremos de como esta ideia cria corpo no entendimento do fenômeno fadiga associada ao contexto de esportes de endurance.


Se ficou difícil para entender lamento, mas aqui vale citar o grande professor Clóvis de Barros Filho em um dos seus inúmeros vídeos postados na internet onde ele cita o Teorema de Pitágoras que muitos nem conseguem aplicar, uma coisa que o cara criou e você é tão limitado que nem consegue aplicar, a mesma coisa se aplica aqui, se tá difícil para você imagine para o Barnstein que resolveu os problemas dele sem ao menos ler meu Blog, então tenha brio e vá estudar porque existem muitas pessoas que se esforçam para produzir ciência de qualidade e usar e valorizar isto é o mínimo que temos que fazer. Sempre torcendo por uma prática baseada em Evidências!



Saudações e tenha Brio..... Vá estudar!

sábado, 13 de junho de 2015

Programas Preventivos para Lesões de Ligamento Cruzado Anterior

Hoje falaremos de uma das lesões mais prevalentes em atletas, a lesão do Ligamento Cruzado Anterior (LCA).



Inicialmente devemos entender que em alguns casos, a lesão do ligamento é causada por trauma e neste há pouco a se fazer no sentido de prevenção, ainda que hoje alguns estudos mostrem que a redução na sobrecarga do ligamento reduza, ainda que pouco, os riscos mesmo nesses casos.Porém a maioria das lesões de LCA ocorrem sem contato (70% aproximadamente) e nestes casos alguns cuidados podem ser importantes para reduzir os riscos relacionados a este tipo de lesão.

Alguns fatores de risco estão intimamente ligados ao aparecimento de lesões de LCA nos esportes e entende-los irá nortear a formatação dos programas preventivos.


O primeiro fator de risco esta ligado ao gênero. Os trabalhos do Tim Hewett descreve algumas diferenças biomecânicas que fazem com que as mulheres apresentem mais riscos relacionados a lesão de LCA do que homens. Estes fatores em muito estão relacionados a anatomia da pelve que promove um prejuízo nos mecanismos de estabilização do joelho e com isso sobrecarregam significativamente o ligamento.

Fatores hormonais também estão relacionados a um maior risco de lesão em mulheres. A flutuação de estrógeno, progesterona e relaxina no ciclo menstrual tem sido relatado com um fator que promove aumento na frouxidão no ligamento, levando a prejuízos nos mecanismos de controle da estabilização ativa e passiva e com isso a utilização de medicamentos contraceptivos pode ser um aliado dos programas preventivos por estabilizar a flutuação destes hormônios(HEWETT,2000).

O segundo fator de risco esta diretamente ligado ao esporte. As lesões normalmente ocorrem em três momentos, aterrissagens de saltos, desacelerações e mudanças de direção e nestes três casos a articulação do joelho é submetida a uma demanda de estabilização vinda da presença de carga no movimento e com isso a boa mecânica e a condição de força (e neste caso a força que serve a técnica, isto é, que pode ser transferida) são fatores cruciais nos programas preventivos.

O terceiro fator de risco é a fadiga. A grande maioria das lesões ocorrem em momentos finais de treino ou jogo, então a influencia da fadiga nos mecanismos neurais de controle da estabilização é um fator decisivo no aparecimento de lesões de LCA.

Além desses a morfologia do pé e as lesões crônicas degenerativas como as osteoartroses (lesões degenerativas estão intimamente ligadas com estabilidade articular reduzida) também são fatores de risco importantes a se considerar.


Dito isto vamos descrever alguns dos fatores relacionados ao esporte que levam o ligamento a condição de uma maior sobrecarga e pode vim a aumentar os riscos de lesão de LCA sem contato.



Fator 1: Dominância Ligamentar

Caracterizado pela redução do controle neuromuscular medial-lateral da articulação (estabilização em plano frontal). Na prática em movimentos como aterrissagem de salto e desacelerações atletas com baixa condição de estabilização em plano frontal apresentam uma disfunção conhecida como valgo dinâmico e isto normalmente ocorre por debilidade dos músculos que promovem a estabilização da articulação do joelho.

Com os músculos débeis e a crescente necessidade em lidar com as forças de reação do solo pela demanda esportiva sobrará aos estabilizadores passivos (ligamentos) a função de estabilizar a articulação visto que os estabilizadores dinâmicos estão inibidos e com isso impossibilitados de participar do processo de estabilização.


Fator 2: Dominância de Perna

Diferenças de força, mobilidade e coordenação motora entre o lado direito e o lado esquerdo também constituem um fator de risco importante pelo aumento da sobrecarga imposta ao lado mais debilitado e isto também será um fator de aumento da sobrecarga ao ligamento.

Fator3: Dominância de Quadríceps.

Nas demandas de desaceleração, aterrissagem de salto ou de mudança de direção, o atleta é submetido a um momento de desequilíbrio e será necessário recuperar este equilíbrio através de mecanismos neuromusculares e há três formas de consegui isto: A estratégia do quadril, a estratégia do joelho ( ou do tornozelo como é mais encontrada na literatura) e a estratégia do passo a frente (muito comum nas saídas dos aparelhos na ginástica olímpica).

Destas três estratégias as duas primeiras merecem ser melhor discutidas aqui:A estratégia do quadril normalmente solicita uma maior ativação dos músculos estabilizadores da cadeia posterior promovendo assim uma melhor distribuição de cargas no mecanismo de absorção das forças de reação do solo. Já a estratégia do tornozelo (ou do joelho) ativa preferencialmente a musculatura do tornozelo para promover a estabilização, o que por si só já seria uma desvantagem do ponto de vista mecânico e aliado a isso ainda existe uma ativação preferencial do quadríceps em relação aos isquiostibiais a nível do joelho.

O aumento da ativação do quadríceps sem a devida ativação da cadeia posterior promove um aumento das forças de anteriorização da tíbia (observe a inserção do Quadríceps na tuberosidade anterior da tíbia) e com isso o LCA fica sobrecarregado em sua função de controle desta anteriorização a cada desaceleração ou aterrissagem de salto durante a prática esportiva.

Fator 4: O Core

Uma disfunção a nível de tronco faz com que os mecanismos neuromusculares de estabilização desta região estejam prejudicados e sendo assim a cada perturbação do equilíbrio haverá uma solicitação maior dos MMII para atender a demanda de estabilizar o corpo do atleta e com isso haverá uma maior sobrecarga imposta ao LCA a cada perturbação sofrida em um salto, sprint ou mudança de direção.

Estes são as 4 disfunções que irão nortear a construção de um programa preventivo para o LCA, com isso fica fácil entender que os objetivos do programa preventivo será:

CORREÇÃO DO VALGO DINÂMICO
REDUÇÃO DAS ASSIMETRIAS
ENSINO DA ESTRATÉGIA DO QUADRIL (aqui obviamente há a necessidade plena do treinamento de habilidades motoras já discutido aqui no Blog)
ATIVAÇÃO DO CORE

Este programa é dividido em fases, porém é totalmente norteado pelas competências do atleta na técnica e em uma avaliação detalhada do aparecimento das 4 disfunções durante o movimento funcional. Após a avaliação traçamos metas e reavaliamos baseado em competências até atingirmos os objetivos citados acima.

1. Correção do Valgo Dinâmico:

Neste ponto o que se observa com mais frequência é a necessidade de ativação do "canto postero- lateral do quadril"(CPL), termo que se refere a região do quadril onde músculos do complexo glúteo (glúteo médio, glúteo máximo, piriforme e etc.)exercem sua função na estabilização do segmento inferior do corpo.

O trabalho de correção do valgo dinâmico também segue uma progressão de carga e vai desde a ativação e o ganho de consciência dos músculos da CPL até atividades dinâmicas onde a sobrecarga específica do esporte é imposta a articulação solicitando os mecanismos neuromusculares regidos por este grupo muscular.



2. Redução de Assimetrias:

Aqui lançamos mão dos chamados exercícios auto limitados por estabilidade, obviamente que para isso temos que ter uma CPL trabalhando bem pois aqui a sobrecarga é maior e a solicitação de estabilidade é decisiva para que seja alcançado o objetivo. Este grupo de exercícios são os conhecidos exercícios unilaterais que irão ser importantes na restauração das condições de simetria do corpo nos mecanismos de estabilização.


3. Progressão de Treinamento do Core:

Outro ponto fundamental é a progressão de treinamento do Core e isto deve ser feito em todos os planos, com isso trabalhos do core anterior e posterior, juntamente com o treinamento da estabilização anti rotacional (plano trasverso), anti lateralização (plano frontal) e anti extensão (plano sagital) devem ser feitos dentro de uma progressão de carga.


4. Treinamento da Habilidades motoras:

O ensino das habilidades motoras de aterrissagem de salto, mudança de direção (Shuffle e Cross over) e desaceleração são cruciais para a redução da sobrecarga exercida sobre o ligamento. Neste caso uma boa programação destas habilidades irá promover uma melhor distribuição de carga pelo sistema de estabilização do corpo.

Nesta parte do programa a ideia é solicitar do atleta a estratégia do quadril e vem sendo descrito que o fato do atleta aprender esta técnica é um forte aliado da prevenção de diversos problemas osteomusculares dos MMII.

Neste momento para que o ensino da técnica seja possível é importante que a CPL e o Core funcionem bem devido a necessidade sensorial do processo de aprendizagem motora como já discutido anteriormente no blog. Aqui é interessante observar que os músculos anteriormente ativados devem ser colocados em uma condição de integração, porque não é a força da CPL ou do Core que irão fazer a diferença e sim a sua condição de ativação dentro do movimento funcional e isso esta muito ligado a coordenação, timing e sincronização de unidades motoras que propriamente com a força. Essa diferença entre ativação e força nos leva por vezes a uma interpretação errada, pois o músculo pode forte e não ser recrutado de forma satisfatória dentro de um padrão de movimento e o entendimento disso muda a abordagem porque aqui não adianta somente trabalhar o músculo com carga sem ter em vista o objetivo final que é a programação motora (engrama motor) do gesto com este músculo trabalhando em plenitude para favorecer o gesto funcional, então o que buscamos aqui é o músculo ativo (timing, sincronização e coordenação) e em alguns casos mesmo músculos fortes podem não se apresentar ativos para o movimento funcional, afinal se o problema fosse força atletas de basquete, atletismo, futebol e etc. não teriam lesões de MMII, porque se são fortes o suficiente para gerar força e potencia para a prática desses esportes porque não seriam para estabilizar uma articulação.

Fica a reflexão sobre a aplicação deste fator na interpretação de dados, como por exemplo avaliações feitas em cadeia cinética aberta que tem como resultado a relação de força entre quadríceps e isquiostibiais como parâmetro para risco de lesão dos MMII, sinceramente acredito que a força do quadríceps ou dos isquiostibiais em cadeia cinética aberta vai influenciar muito pouco em um mecanismo de desaceleração, mudança de direção ou aterrissagem de salto, que além de serem realizados em cadeia cinética fechada ainda são gestos que envolvem uma integração de diversas partes do corpo que por fim irá resultar em uma estabilização dinâmica sob carga, então a natureza sensorial do gesto, as condições biomecânicas das articulações envolvidas, a magnitude e o tipo de carga e o tipo de contração sinceramente não tem nenhum tipo de similaridade.



Por fim, mais uma vez é interessante usar estas informações como guia, porém a avaliação criteriosa de todos estes fatores e a experiência do profissional farão total diferença na qualidade e nos resultados dos programas de prevenção, treinamento ou reabilitação.










quarta-feira, 10 de junho de 2015

O ombro de Arremessadores - Prevenção e Reabilitação.






Hoje falaremos das lesões em atletas arremessadores acima da cabeça ( voleibol, handebol, goleiros e etc. fazem parte deste grupo)e de como estas lesões interferem em um programa de treinamento.

Partindo do princípio que atleta lesionado é atleta que não treina e atleta que não treina não tem performance, treinadores que ignoram o conhecimento sobre lesões realmente estão fora de sintonia com o conceito moderno de performance. Como já tratamos outras vezes nesse blog a avaliação e a correção de disfunções de movimento fundamental são pontos importantes não só para atletas como para qualquer pessoa, mas isto é só o ponto inicial. Quando falamos de atleta temos que considerar sempre que o movimento impõe carga, então as avaliações de movimento que são feitas com carga estão longe de serem um parâmetro que garanta redução de riscos ou retorno seguro pós reabilitação.

Sendo assim, conhecer os mecanismos de lesões e sua relação com a prática esportiva, como avaliar, como prevenir e como tratar são conceitos de suma importância dentro do processo de aquisição de performance atlética. Então conversaremos sobre alguns aspectos ligados ao ombro de atletas que arremessam acima da cabeça.
A síndrome do impacto é a mais comum afecção do ombro em atletas e não atletas e pensar sobre ela nos leva essencialmente a artrocinemática do ombro e na influencia de músculos que elevam a cabeça do úmero (deltoide) e que deprimem a cabeça do úmero (manguito rotador). A síndrome do impacto é caracterizada pelo impacto anterior do ombro e isto ocorre essencialmente pelo desequilíbrio onde o deltoide supera o manguito rotador e com isso há uma superioridade da cabeça umeral que tende a reduzir o espaço sub acromial. Dentro desse pensamento demasiadamente simplificado temos o manguito rotador obviamente como ponto essencial no tratamento e prevenção da síndrome do impacto, porém não poderíamos pensar em um mecanismo de lesão do ombro sem considerar o alicerce de movimentação do ombro que é a articulação escapulo torácica.

Os músculos do manguito rotador se inserem na escapula e disfunções biomecânicas nesta região levam estes músculos para uma posição de desvantagem mecânica e com isso há uma tendência a insuficiência deste grupo muscular. A discinese escapular é a alteração biomecânica caracterizada pela instabilidade da articulação escapulo torácica que tem como consequência dois movimentos anormais que influenciam diretamente na síndrome do impacto: aumento anormal do movimento de bascula anterior da escapula que acompanha a flexão do ombro e da rotação superior que acompanha a abdução do ombro.

O aumento da báscula anterior da escapula ocorre normalmente pela insuficiência do serrátil anterior que é um potente estabilizador da escapulo torácica e quando isto ocorre o movimento de báscula aumentado leva a uma maior tendência de impacto anterior do ombro em movimentos acima da cabeça por aumentar a anteriorização do acromio durante este movimento.

Já a rotação superior da escapula é uma sinergia entre o serrátil, o trapézio fibras descendentes e o trapézio fibras ascendentes e nos casos onde ocorre discinese escapular há uma tendencia a insuficiência do serrátil e das fibras ascendentes do trapézio, o que sobrecarrega as fibras descendentes do trapézio e coloca estas fibras em tensão, com dor e aparecimento de trigger points.

O ponto de partida da intervenção na escapula seria obviamente inibição ou liberação das fibras descendentes do trapézio e ativação do serrátil e do trapézio ascendente no sentido da correção da discinese e este seria um ponto a ser analisado tanto na necessidade de reabilitação de uma lesão já existente como em programas preventivos para este grupo de atletas.

Outro ponto a ser analisado é o equilíbrio em plano transversal do ombro. Arremessos acima da cabeça envolvem uma considerável sobrecarga sobre os músculos rotadores externos e internos do ombro, de forma excêntrica e concêntrica respectivamente. A literatura mostra que o ideal é uma relação de 1:1, isto é a força de rotação interna deve ser igual a força de rotação externa, porém atletas com síndrome do impacto tem rotadores externos mais fracos que rotadores internos e isto é outro ponto importante a ser analisado.

Atletas que arremessam acima da cabeça necessitam de uma desaceleração excêntrica do movimento após o contato com a bola para evitar uma possível luxação superior do ombro e esse mecanismo é feito pelos rotadores externos e a custas de um stress considerável na cápsula posterior que quando realizado repetidamente (e aqui considere o enorme volume imposto para o mesmo gesto na prática esportiva) leva a uma retração crônica desta cápsula e com isso a redução da amplitude de rotação interna do ombro (GIRD - Glenohumeral internal rotation déficit).

Dito isto iremos propor um protocolo em fases que poderia ser aplicado a este grupo de atletas em um momento pós tratamento da dor ou como programa preventivo:

Fase 1:

Correção da disfunção escapular

Liberação do Trapézio fibras descendentes
Ativação do Serrátil e Trapézio fibras ascendentes
Avaliar a necessidade e o momento oportuno para a intervenção nos rombóides, considerando que este também é um importante estabilizador da escapulo torácica.


Fase 2

Intervenção no manguito rotador

Aqui cabe a observação de que elevação lateral com halteres é possivelmente uma péssima opção para reabilitação do ombro já que isto vai favorecer a superioridade do úmero e aumentar ainda mais a disfunção em questão. ( Na verdade aboli este exercício de todas as minhas prescrições há tempos, realmente não consigo ver muita utilidade para ele)

Trabalho do manguito rotador associado obviamente a estabilização escapular já trabalhada na fase posterior (atenção no trabalho de ensino do movimento e no cuidado com a técnica), inicialmente de forma concêntrica e isolada e posteriormente de forma excêntrica evoluindo no sentido da utilização do manguito rotador de forma integrada com co- contração e perturbação externa ( atenção no cuidado com as progressões de carga nesta fase)




Fase 3

Treinamento sensorio motor

Utilização do manguito rotador na sua função de estabilização com integração entre escapulo tórácica, ombro, coluna cervical e dorsal dentro de suas funções articulares


Fase 4:

Retorno completo as atividades esportivas específicas.



Obviamente que isto é uma proposta geral que na realidade vai depender muito mais da experiência do profissional em lidar com estas condições, mas serve como um guia geral de um programa com duas características claras que acredito serem essenciais: O primeiro é a progressão em carga no sentido de finalizar o programa com cargas específicas e a outra é que a progressão deve ser feita baseadas em critérios de saída claros em cada uma das fases tendo em vista sempre a aquisição de competências motoras em cada fase. Isto torna o programa mais seguro e eficiente.


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Desenhando um programa de redução de lesões e performance no Futebol

Os programas que visam redução no risco de lesões e os programas que visam desenvolver performance por muito tempo foram vistos como partes dissociadas de um programa de treinamento, porém no mundo contemporâneo do treinamento desportivo a reabilitação, a prevenção, a performance e a regeneração (juntando-se a psicologia e nutrição) fazem parte de um sistema integrado e indissociável dentro da preparação de um atleta, com isso torna- se de suma importância o domínio de alguns conceitos que norteiam o design de programas de preparação atlética. Utilizando com o exemplo o futebol vamos descrever alguns componentes e conceitos de suma importância para o desenvolvimento atlético e redução de riscos de lesão.


Passo 1: Qualidade de Movimento:

Dentro desse tópico entramos em um pensamento voltado para o desenvolvimento do movimento em sua forma básica, para jovens atletas usamos um termo chamado "Alfabetização Física", com isso definimos o desenvolvimento do movimento em sua forma básica e assim tornamos mais seguro e eficiente a transição para movimentos mais específicos (os chamados movimentos esporte-específicos) que na verdade consistem numa redução dos graus de liberdade e no aumento do controle motor tornando o atleta hábil na realização de um movimento que por sua vez, irá leva-lo a alta performance esportiva como resultado final deste movimento.

Uma boa maneira de começar a investigar e intervir neste processo é através da identificação das alterações de padrão de recrutamento neural. O que seria isto? Alguns músculos, mesmo bem trabalhados, isto é fortalecidos com movimentos específicos podem não responder de maneira eficiente quando usados em conjunto para realizar um movimento (Coordenação motora) e isto normalmente ocorre por alterações no timing e na sincronização da ativação neural dos músculos envolvidos no gesto motor e para identificar isso usamos testes específicos que identificam ativações e inibições musculares em movimentos específicos.

Este seria o primeiro passo porque sem isso os exercícios corretivos não terão efeito, pois os exercícios chamados de corretivos se baseiam na aprendizagem motora e enquanto houver alteração de padrão de recrutamento, a estrutura cortical do sistema nervoso continuará percebendo mal do ponto de vista proprioceptivo e como a aprendizagem se inicia a nível sensorial (perceptivo) torna-se impossível aprender movimento até que os músculos estejam trabalhando em sincronia.

A restauração dos padrões fundamentais de movimento são importantes na redução dos riscos de lesão, mas sua importância diminui a medida que os atletas evoluem em nível de performance, pois em um trabalho contínuo normalmente estes padrões ditos fundamentais tornam-se bem estabelecidos em atletas mais experientes ditos alfabetizados do ponto de vista motor.

É importante frisar que a importância da recuperação dos padrões fundamentais não pode por hipótese alguma encerrar uma abordagem em um atleta, pois a demanda esportiva em termos de sobrecarga é muito grande e com isso apenas bons padrões de movimento em momento algum é suficiente para proteger um atleta exposto a altas demandas de carga (carga não necessariamente significa peso, deixando claro isso).


Passo 2: Eficiência de movimento:

Este é o ponto crítico do processo de prevenção e performance, neste ponto os conceitos de redução de risco de lesão e alto desempenho esportivos se fundem de forma incrível.A técnica desportiva é o principal componente da prevenção de lesões e o principal componente do aumento do desempenho esportivo e sem que haja a excelência deste componente todo o programa fica totalmente comprometido.

Do ponto de vista da redução dos riscos de lesão, a aprendizagem da técnica desportiva em sua excelência, lembrando que esta aprendizagem é totalmente dependente da base motora (Alfabetização motora)é o componente onde o atleta aprende de forma cinestésica a lidar com as altas sobrecargas impostas pela demanda esportiva. Não há como prevenir lesão em um atleta de futebol sem que este atleta esteja familiarizado com a técnica de desaceleração (Schuffle) e mudança de direção (CrossOver), pois esta é a forma de lidar com a carga excêntrica imposta no jogo por estas necessidades.


Já do ponto de vista da performance é essencial o desenvolvimento da eficiencia de movimento que é definida pelo binômio Geração de Força + Aplicação de força. A Geração de força trabalhamos com o treinamento de força que quanto mais próximos as demandas motoras da atividade esporte-específica mais irá beneficiar o processo de transferência das adaptações de treinamento, enquanto a aplicação da força fica por conta da aprendizagem do gesto esportivo, pois é a partir deste processo que o corpo irá criar condições de utilizar esta força de forma eficiente no gesto esportivo.

Obviamente geração e aplicação de força são interdependentes e indissociáveis quando se fala de transferência de treinamento, como já falado aqui no blog, a teoria mais moderna e aceita para descrever este processo se chama teoria dos sistemas dinâmicos e se baseia na auto organização dos processos de aprendizagem.Outro componente importante aqui é a pliometria, que serve de base para ensinar o corpo a aproveitar melhor a energia elástica através da rigidez (Stiffness)e acaba sendo o componente que faz o link entre o treino e os componentes específicos de jogo.

Um atleta eficiente é um atleta que consegue aplicar sua força de forma eficiente e com isso é mais econômico do ponto de vista metabólico que se mostra um componente extremamente relevante na performance em esportes coletivos como o futebol.

Passo 3: Força

A força é outro componente essencial para os dois objetivos que estamos propondo neste texto. De inicio podemos analisar o fator força para jovens atletas como um componente que irá proporcionar adaptações de tecidos moles proporcionando robustez de várias estruturas como tendões e ligamentos (obviamente estas adaptações dependem do volume e exercícios com peso corporal servem bem a esta função em jovens), sendo assim um componente de base importante na redução dos riscos de lesão.

Um outro ponto a se observar é que o treinamento da força em atletas de alto nível serve para o componente geração de força e quanto mais específico, maior a probabilidade de transferência e neste ponto exercícios com pesos proporcionam significativas melhorias na relação musculo-tendão aumentando a eficiencia de movimento e permitindo ao atleta realizar mais trabalho no mesmo espaço de tempo, preservando assim a geração de potencia ao longo do tempo (endurance) e neste ponto sendo fundamental para o alto desempenho esportivo e para a redução dos riscos de lesão pelo aperfeiçoamento da mecânica de movimento e sua consequente economia.

Passo 4: Velocidade em alta intensidade:

Componente crucial e definitivo para a alta performance no futebol e outros esportes coletivos, a velocidade jamais poderá ser negligenciada em um programa de treinamento, tudo que foi falado anteriormente como padrão de movimento, técnica desportiva e força formam uma base para a capacidade de gerar e manter altos níveis de velocidade em uma partida de futebol e isto deve sempre ser considerado quando pensamos em performance atlética.

Faude et al. (2012) constataram que a grande maioria dos gols marcados na segunda metade da temporada alemã Bundesliga 2007/2008 foram resultado de movimentos de alta intensidade (sprints saltos, em linha reta), e o mais interessante, eles descobriram que a maioria dos gols foram precedidos por uma corrida em linha reta sem a bola e isso mostra a grande importância em ser rápido neste esporte, além disso a necessidade de criar espaços no campo para a tática de jogo é melhor realizada quando se é apto em velocidade.

Derek Hansen em seu artigo sobre a importância da velocidade em melhorar as habilidades de sprint máximos mostrou que isto permite que um atleta não só opere em velocidades mais altas durante um jogo (devido a velocidades de jogo ser sub-máxima), mas também melhora a capacidade de repetição de sprints e a sincronia neuromuscular necessária para a prevenção de lesões.

O treinamento do componente velocidade é realizado pensando em dois aspectos de sua técnica, os componentes de força que resistem ao deslocamento do atleta - as forças verticais (gravidade) e as forças horizontais (atrito e resistência do ar)- e neste aspectos há uma importância maior das forças verticais, pois a somatória dos dois componentes de forças horizontais são quase insignificante frente a gravidade. Sendo assim desenvolver velocidade é desenvolver a capacidade do atleta em vencer as forças verticais e para isso é essencial lidar com as forças de reação do solo (terceira lei de Newton) e isto é feito tanto no componente de geração de força (levantamentos olímpicos por exemplo) como no componente aplicação de força (Pliometria e técnica de sprint por exemplo), sendo crucial a máxima eficiência neste movimento para que ele possa ser econômico o suficiente para ser repetido por vezes suficientes com o mínimo decremento de potencia durante a partida.

Passo 5: Regeneração

A regeneração é outro componente importante nos dois aspectos citados, a rotina de treinamento e o acúmulo de sobrecarga consequente disto é um fator que pode levar a uma condição de estresse que prejudica o atleta em seu desempenho e pode levar a lesões por overuse, com isso componentes relacionados a regeneração como o sono, os recursos térmicos, nutricionais e etc. ganham grande importância no processo de performance e prevenção, além disso a competência do treinador em manipular as cargas de treinamento também é um componente decisivo neste processo.Outro fator importante no tocante a regeneração são os recursos de monitoração individualizada deste componente, com isso ampliamos significativamente o controle sobre esta variável e podemos tomar decisões importantes sobre o programa de treinamento baseados em dados concretos.

No final deste cinco passos, temos um esboço de um programa que cumpre seu papel em produzir alta performance com o menor risco de lesão, contendo elementos que envolvem desde uma estrutura de base até uma performance altamente específica em jogadores de futebol. Obviamente com o passar dos anos na carreira de um atleta alguns componentes tornam-se mais relevantes que outros e mesmo saber encaixar este componentes dentro de uma pré temporada e de uma temporada também é um fator decisivo no sucesso deste processo, mas o que fica claro é que para uma carreira duradoura em alta performance é essencial que os programas de treinamento evoluam para uma maior integração de conceitos e uma modernização das condutas e ações por parte dos treinadores e equipe técnica.